Principal arrow Ribeirão arrow Na Primeira Pessoa, com Joaquim Carneiro
Clube de Cultura e Desporto de Ribeirão | Domingo, 05 Setembro 2010
Principal
Ribeirão
Opinião
Breves
Fradelos
Desporto
Cultura
Observador
 
 
 
Na Primeira Pessoa, com Joaquim Carneiro PDF Imprimir E-mail
Sábado, 24 Abril 2010
Image
Joaquim Carneiro

Joaquim Carneiro, reconhecido Fadista e intérprete do Grupo Tradicional de Música Portuguesa Folk d`Ave, abre-nos as páginas do livro da sua vida, para que o possamos conhecer melhor.

Viver a Nossa Terra – Apresente-nos o Joaquim Carneiro...
Joaquim Carneiro – Sou um cidadão natural da vila de Ribeirão, onde nasci nos anos sessenta, num lugar que se chama “Portela” e, filho de um casal extraordinário.

VNT – A fase da juventude é sempre um período marcante nas nossas vidas. No seu caso….
JC – Tive uma infância e uma juventude igual à de toda a gente desse tempo onde a música estava presente permanentemente. Tenho muito boas recordações da minha juventude, da alegria com que vivíamos.

VNT – Os seus pares descrevem-no como tendo um timbre de voz pouco vulgar. Como e quando se apercebeu que tinha o dom para cantar?
JC – Sempre gostei de cantar. O que me deu alguma educação na voz foi o facto de ter feito parte de um grupo coral infantil, o primeiro criado aqui em Ribeirão, pelo Sr. Padre Henrique Faria. Era um homem com um ouvido fantástico e uma capacidade invulgar para organizar e pôr um grupo coral a cantar bem. Lembro-me do meu tempo de aluno na escola primária onde se cantava nas manhãs de sábado e, ainda hoje, sempre que estou a cantar e vejo na plateia aquela que foi a minha professora, durante os 4 anos da instrução primária, a Sr.ª Dª. Manuela, esposa do Sr. Libório, dedico-lhe sempre uma cantiga, tenho saudades desse tempo e até da música com que entoávamos a tabuada.
Quanto ao meu timbre de voz, as pessoas acham-no agradável de se ouvir e, obviamente, fico contente por isso. Tenho tido a sorte de ser apreciado pelas pessoas que estão bem colocadas no nosso mundo musical. Algumas já me oferecem coisas para eu cantar, como foi o caso do Frei Hermano da Câmara. Uma vez fui encontrar-me com ele em Braga, no Sameiro, para lhe mostrar um ensaio que tinha gravado, onde cantava uma criação dele, “Maria da Conceição”. Ele ouviu, gostou e cedeu-me umas músicas para eu cantar. É uma pessoa com muito talento.

VNT – Os colegas de escola, no Porto, inscreveram-no por brincadeira num concurso de Fado amador. A partir daí….
JC – Essa foi a maior partida que me pregaram. Nesse concurso fiquei classificado em segundo lugar. A partir daí tive um convite para gravar um disco, depois outro, e depois mais outro, tendo-se sucedido uma quantidade de coisas boas, como participações em vários festivais, em inúmeros programas de televisão e em muitos espectáculos que me deixam enternecido só de pensar nesses momentos bons.
 Este foi um momento que me deu muitas possibilidades. Permitiu que contactasse pessoas que me fazem ter saudades, pelo valor que elas têm, e por tudo quanto nos podem ensinar. Destaco, os actores Ruy de Carvalho, Carmén Dolores, Maria José Pascoal, Prof. Leonor Leitão, e muitos cantores, como a irmã da Amália, a Celeste Rodrigues, Maria José Valério, Dulce Pontes, Teresa Salgueiro, Hermano da Câmara, Florência, Rosita, e tantos, tantos outros…

VNT – Podemos considerar que na música tem dois amores, o Fado e a Música Tradicional Portuguesa (Folk d`Ave). Os diferentes estilos completam-no?   
JC – O fado é também uma música popular. Ambas na minha opinião se completam. Nunca o fado poderia abarcar tanta tristeza se o folclore não tivesse tanta alegria. O fado e o folclore são a nossa música.

VNT – Amália Rodrigues é uma figura incontornável na sua vida. Dos momentos mais marcantes, recorda-se de….      
JC – Recordo-me de todos os momentos que passamos juntos. Todos os nossos encontros, os jantares, as férias na sua casa do Brejão, a ternura com que me diferenciava e todas as atenções que sempre teve comigo. Era tal o carinho que tinha por mim que às vezes ligava ao sábado às 16 horas para ir jantar com ela a Lisboa. Todas as minhas desculpas quase não contavam. Acabava sempre por ir, regressando no dia seguinte. Muitas vezes ao acordar, tinha dependurado no puxador da porta do meu quarto, um elegante embrulho com uma lindíssima gravata de seda. Eram serões que nunca tinham hora de acabar. Foram momentos únicos….momentos que a vida jamais me poderá oferecer. Tenho muitas, muitas, muitas saudades.
Recordo-me, também, quando a Amália veio a um jantar a Famalicão, a convite do actual presidente da Câmara, o Sr. Arq. Armindo Costa, onde se passou uma noite soberba. Tivemos, ainda, uma passagem engraçada, numa altura em que a Amália regressava da Galiza e, no sábado de manhã, ligou-me a dizer que estava a caminho do Porto, regressada da televisão da Galiza. Então convenci-a a passar o fim-de-semana comigo. Aceitou e, no Domingo, fomos almoçar a casa de um outro amigo, o Dr. Duarte Santos, em Fradelos. Foi uma festa, e tão animada, que na Estação de Campanhã, o chefe da estação, teve que atrasar a saída de alfa-pendular porque, à hora da partida, a Amália ainda estava no túnel.
São estes momentos que enchem a minha vida de saudades e, com a partida destas pessoas, nós vamos cada vez ficando mais pobres.

VNT – Para que o espectáculo final seja o desejável há todo um trabalho de equipa, para ensaios, marcação de agenda, transporte de materiais para espectáculos. Visto esta não ser a vossa actividade principal, como gerem estas tarefas?    
JC – Essas tarefas são da responsabilidade do meu irmão Fernando. É ele que me poupa em todos esses pormenores.

VNT – Um espectáculo musical está imbuído de emoções, sentimentos, que contagiam o público. Ao cantar o fado procura…..e com os Folk d`Ave?       
JC – Procuro sempre levar às pessoas a alegria ou a tristeza que esteja impresso naquilo que canto. Tento através dos fados, levar às pessoas aquilo que, no meu entender, o poeta queria que eu transmitisse. Pretendo que as pessoas o sintam com a mesma intensidade que eu. No caso do folclore, quero sempre que as pessoas sintam, no peito, a alegria de Portugal inteiro, a emoção e a explosão da nossa alegria.

VNT – No seu entender, ao nível cultural/musical, Ribeirão precisa….  
JC – Ribeirão está a dar passos lentos. Temos falta de muitas coisas a nível cultural, mas temos, pelo menos, a possibilidade de nos deslocar a Famalicão, onde há uma agenda cultural soberba. Nós vamos caminhando lentamente mas com passos seguros.

VNT – De todos os trabalhos que editaram, no fado e folclore, qual elegeria como o de maior sucesso? Porquê?

JC – O trabalho mais ouvido, a nível local, foi um disco que gravei há alguns anos, onde cantava uma cantiga de um grande poeta da cidade do Porto, José Guimarães, que se chamava “Oh Minha Mãe”. Ainda hoje, as pessoas a pedem e se comovem ao ouvi-la. Em termos de qualidade, este último disco, que se chama “Histórias de Fado” é, inequivocamente, o melhor, quer ao nível da tecnologia do estúdio, quer ao nível de acompanhamento. Além das guitarras, há o acompanhamento de piano, em alguns temas.

VNT – Dos trabalhos editados no panorama musical nacional destacaria…..
JC – Poderia falar numa série deles. Mas vou apenas referenciar umas recolhas de músicas e cantares de todo o nosso país. Foi uma recolha feita por “Michel Giacometti”, um Etnomusicólogo extraordinário que nos deixou uma herança única em termos de recolhas de cantares populares.

VNT – Que projectos musicais estão previstos para o futuro?
JC – Estou a terminar a gravação de mais um CD. Posteriormente, tenho outro em preparação, composto por 12 músicas que me foram oferecidas por um guitarrista que, durante quarenta anos, acompanhou a Amália Rodrigues.

VNT – A personalidade da sua vida.
JC – Várias. Mas vou apenas lembrar Nelson Mandela.

VNT – A música da sua vida.
JC – Todas as que me fazem sonhar…e há muitas que me levam a esse estado.

VNT – O filme da sua vida.
JC – “E tudo o vento levou”. Talvez porque o vi numa altura em que estava a recuperar de uma operação ao coração. É um filme que, ainda hoje, vejo com muito agrado.

VNT – O livro da sua vida.
JC – É sempre o último que estou a ler. Neste caso, é “o afinador de pianos”. No entanto, gostei muito de ler “A Garota do Cine-Roma”, que terminei recentemente.

VNT – Local que gostaria de visitar.
JC – Qualquer paraíso natural.

VNT – Local onde gostaria de viver.
JC - Onde vivo.

VNT - Quer deixar alguma mensagem aos leitores do “Viver a Nossa Terra”?
JC – Que nunca desistam dos vossos sonhos e oxalá conservem sempre a capacidade de sonhar. É o sonho que comanda a vida.

António Almeida
< Anterior   Seguinte >
 
   
     

 
 
Clube de Cultura e Desporto de Ribeirão. Todos os direitos reservados.
Alojamento: Netgócio