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Principal Ribeirão Na primeira pessoa, com Pe. Delfim Afonso
Clube de Cultura e Desporto de Ribeirão | Domingo, 05 Setembro 2010 |
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Na primeira pessoa, com Pe. Delfim Afonso |
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Segunda, 24 Maio 2010 |
 P. Delfim Afonso
Eternamente grato às suas origens o Padre Delfim serve, com humildade, sabedoria, e amor ao sacerdócio, as paróquias de Fradelos e Vilarinho das Cambas. Vamos conhecer melhor este Homem de Fé e de fortes convicções!
Viver a Nossa Terra – Apresente-nos o Padre Delfim...
Pe. Delfim – Graças a Deus, nasci numa família católica que no dia 25 de Dezembro me quis tornar Filho de Deus pelo sacramento do baptismo, na Fonte baptismal da minha terra natal, Vila Nova de Paiva, no Planalto Beirão da Diocese de Lamego. Com essa celebração começou a minha aventura de seguimento de Cristo. Através da educação cristã fui tomando conhecimento da importância de Deus na minha vida e do Seu amor por mim. A prática religiosa, da maior parte da minha família, ajudou-me a perceber o essencial da fé e como Deus era importante na minha vida.
VNT - Recorda-se como nasceu a sua vocação sacerdotal e o seu sim ao “Chamamento de Deus”?
Pe. Delfim – Não posso dizer que seja uma questão de um momento em que o chamamento de Deus (vocação) se faz ouvir. Este é um processo mais ou menos longo de maturação de uma resposta ao convite que Jesus fez aos discípulos nas margens do mar da Galileia: “Vem e segue-Me” e, continua hoje a fazer a quantos O escutem. O chamamento chegou até mim, através do ambiente cristão em que vivi, da família e da comunidade paroquial. Um acontecimento fez amadurecer, ainda mais, este desejo de responder afirmativamente ao convite, a morte do meu pároco, quando eu teria os meus 15 anos. Esse acontecimento fez despertar, em mim, o desejo de ocupar na Igreja um lugar que ficava vazio. O de um servidor do Reino, que já não poderia mais celebrar para os irmãos os Sacramentos necessários à salvação. Durante anos a minha paróquia esteve sem pároco, apenas um vizinho fazia os serviços mínimos. A chegada de um novo Pároco e a conversa com ele foi-me ajudando a perceber que esse poderia ser o meu caminho.
VNT - Como foi vivida a sua juventude e que modelos o orientaram?
Pe. Delfim – Neste itinerário de maturação da resposta, a decisão não foi fácil. Sou de uma família humilde e aos 12 anos tive de deixar a escola. Os meus irmãos mais velhos assim tinham feito e, no entender dos meus pais, comigo não deveria ser diferente. Ainda não tinha 13 anos quando comecei a trabalhar na construção civil, acompanhando o meu irmão. Quando, com 17 anos feitos, decidi que deveria voltar a estudar para ir para o seminário, a decisão foi inesperada para os meus familiares. Afinal, deixaria de trabalhar e seria um encargo para os pais. Por sorte, na minha pequena Vila, começou nesse ano, a funcionar a escolaridade nocturna. Com mais uma dúzia de adultos lá ia eu para a escola todos os dias, das 19 até ás 23 horas, depois de um dia de 8 horas de trabalho, na construção civil. Assim passei os últimos dois anos que estive em casa. Só aos 19 anos, com o 9º ano feito, entrei no Seminário.
Fui amadurecendo a minha escolha participando em actividades diocesanas, como retiros e encontros nacionais, e com o trabalho anual de voluntário realizado em Fátima, durante vários anos. Foi numa actividade de catequese, em Fátima, que conheci o seminário da Congregação dos Missionários Monfortinos, no qual viria a entrar com 20 anos.
Aos 19 anos, a viagem de Vila Nova de Paiva para o Seminário Diocesano, na cidade de Bragança, foi o culminar de longos sacrifícios e determinações movidas por muita vontade.
O processo de maturação foi longo, passando pelos seminários de Bragança e depois pelos seminários desta família religiosa Monfortina, em Fátima e Lisboa, onde frequentei a Universidade Católica. Depois do Noviciado, feito no sul de Itália em 1995, fui aceite nesta Congregação professando os Votos Religiosos de Pobreza, Castidade e Obediência, pelos quais me consagrei a Deus, ao serviço dos irmãos na Igreja que amo. Daí a nova morada foi Roma, onde passei mais 5 anos de formação para completar a Licenciatura em Teologia e o Mestrado em Mariologia.
VNT - O dia da Ordenação Sacerdotal é um momento certamente muito marcante. Que sentimentos invadiram o seu coração?
Pe. Delfim – A ordenação sacerdotal ocorreu no mesmo local onde tinha sido baptizado, a Igreja Paroquial da minha terra, construída há 700 anos pelos meus antepassados dos quais eu felizmente herdei a fé como legado precioso. A um de Outubro farei já dez anos de sacerdote. Claro que esse dia foi muito significativo. Pela Oração Consacratória que o Sr. Bispo D. Jacinto proferiu recebia esse Dom maravilhoso de poder agir na Pessoa de Cristo para celebrar os sacramentos em favor da salvação da humanidade que Ele quer salvar. Com esse Dom, recebia a responsabilidade de O tornar presente por uma vida de entrega à causa do Reino, sobretudo assumindo o dever de O anunciar pela proclamação fiel do Evangelho em palavras e obras. Quando o Sr. Bispo me entregou o Cálice e a Píxide, como instrumentos que eu passaria a usar diariamente para celebrar a Eucaristia, senti uma grande responsabilidade: Cristo passaria a estar presente, todos os dias nas minhas mãos, através desse Dom do sacerdócio que recebia. Maravilha enorme, que nunca chegarei por certo a compreender senão no Céu. Simultaneamente, vi que o esforço e determinação assumidos tinham sido importantes na minha vida. Os sacrifícios feitos, eram como que “coroados” de uma glória grande.
VNT - A celebração da sua missa nova foi…….
Pe. Delfim – Não dei grande importância a esse passo, considero como Missa Nova, a que concelebrei com o meu Bispo no dia da Ordenação Sacerdotal. Por uma questão de calendário, uma vez que depois da ordenação tive de regressar imediatamente a Roma para prosseguir o Mestrado, não pude pensar muito no assunto. Mas uma Eucaristia de acção de Graças foi celebrada, dois dias depois, na Capelinha das Aparições em Fátima. Trata-se de um lugar para mim muito significativo, pois o frequento com assiduidade e devoção desde 1988.
VNT - Como procura, na sua vida pastoral, viver a máxima, “proclamar o Reino de Jesus Cristo por Maria”, defendida por S. Luís de Montfort?
Pe. Delfim – Antes de mais, estando integrado na Missão que esta Congregação desenvolve no mundo. Presentes em trinta países, procuramos seguir o carisma de S. Luís, apresentando ao mundo Jesus, a Sabedoria Encarnada. É nesta dimensão da Encarnação do Verbo que entra a missão importante assumida por Maria na história da Salvação. Sendo a devoção a Maria uma realidade presente em toda a espiritualidade cristã, S. Luís desenvolveu essa devoção sob a forma de Consagração a Jesus Cristo pelas mãos de Maria. Este foi, também, o lema adoptado pelo Papa João Paulo II no seu Pontificado, “Totus Tuus”. Segundo a sua doutrina, a meta última da nossa devoção é Jesus Cristo, mas para nos ajudar a viver esta devoção, precisamos de encontrar o meio adequado, sendo Maria a criatura que mais se assemelhou a seu Filho pela obediência e disponibilidade. Ele encontra em Maria o caminho seguro para chegar a Deus. De resto toda a minha acção Pastoral, consiste unicamente em tornar presente nas pessoas o amor intenso a Jesus Cristo e nada mais, pois a Igreja não tem outra missão na terra.
Na minha vida pessoal e pastoral, procuro difundir uma devoção mariana sólida que não apenas sentimental, sendo fiel às orientações e prioridades traçadas pelo carisma que esta Congregação a que pertenço é depositária. Estou, nesta paróquia, por mandato recebido do meu superior, aqui em Portugal, até quando acharmos por bem. Como em todas as paróquias há serviços básicos a prestar. Procuro não cair na rotina nem no assistencialismo de uma religião comercial, mas sim fundada no amor.
Três prioridades ocupam o meu trabalho:
- Oração e fazer com que nas paróquias se reze: a oração mariana do rosário é feita diariamente nas paróquias, apresentando uma espiritualidade que leve a uma vivência séria dos sacramentos, apelando aos requisitos mínimos para que possam ser celebrados com alguma verdade e dignidade;
- A formação, que passa pela publicação do boletim semanal, acções de formação nas paróquias e o incentivo a que as pessoas participem em actividades formativas a nível arciprestal, diocesano e nacional;
- A seriedade e empenho no combate ao relativismo imperante na vida de muitos baptizados. Esta exigência passa pelo combate a uma certa religiosidade que poderíamos caracterizar de “buffet”, pela qual por vezes se querem alimentar tradições cristãs, mas sem fé e empenho cristão na Igreja e no mundo. Sei que sou catalogado como exigente em alguns aspectos, mas convivo bem com isso. Não me arrependo de apelar a que as pessoas sejam responsáveis e se decidam por Cristo ou contra Ele. A ambiguidade não faz bem à Igreja. E como disse há dias o nosso querido papa Bento XVI, os ataques à Igreja não vêm só de fora, mas de dentro, isto é, da falta de seriedade em muitas vidas ambíguas e falsas motivações com que por vezes se recorre à Igreja.
VNT - Como é que sente o envolvimento dos leigos na vida das paróquias que serve?
Pe. Delfim – Há muito trabalho feito, mas muito a fazer ainda. Cada uma das paróquias que sirvo é diferente, dado que cada uma tem um determinado itinerário percorrido pela herança do passado.
Sem dúvida que o envolvimento dos leigos passa antes de mais pela formação, sem ela não vamos a lado nenhum. Dou graças a Deus porque há pessoas que estando inseridas em Movimentos podem adquirir essa formação e sentir com a Igreja as preocupações e prioridades dos pastores. Num meio descristianizado e relativista em que vivemos, só a formação dos leigos pode garantir o futuro das comunidades paroquiais. Sei que há leigos que amam as paróquias, empenhados no trabalho e dispostos a procurar com humildade a formação que os torne aptos para tal, mas também há quem sem a formação devida, por preguiça, desinteresse ou falta de amor à causa, pretenda ocupar lugares para os quais não estão preparados. Nos dias que correm essa formação é urgente, seja no âmbito da catequese, da animação litúrgica, da administração, etc.
A competência para prestar um bom serviço à Igreja, numa paróquia concreta, adquire-se pelo amor na escola da oração. A humildade, que leva a uma atitude de respeito para com as competências dos pastores e demais leigos é um outro traço essencial.
Vivemos num época difícil, na qual por vezes não se procura a Verdade e fidelidade ao Evangelho e à Igreja, mas sim às conveniências e vozes do momento. A falta de formação dos leigos constitui uma grave deficiência para a Vida Paroquial. Este é um dos motivos pelos quais a Igreja por vezes não é sal e luz que possa iluminar e dar sabor à vida, aos que estando fora, têm o direito de esperar dos cristãos leigos, bem como dos sacerdotes, exemplos de vidas apaixonadas por Cristo. Passa-se muito tempo a dar e a ouvir opiniões, a sugerir, a criticar e muito pouco tempo a rezar e a estudar.
VNT - Entre 19 de Junho de 2009 e 19 de Junho de 2010 celebramos o “Ano Sacerdotal”. Esta é uma oportunidade para….
Pe. Delfim – Antes de mais, para dar Graças a Deus por nos ter dado um Sacerdote por excelência capaz de fazer a ponte entre o Céu e a terra: Jesus Cristo, único e Eterno Sacerdote. Oportunidade, também, para ajudar cada cristão a assumir a sua responsabilidade na oferta que deve fazer de si mesmo, e do mundo, a Deus Criador. Nisto consiste o sacerdócio Comum dos fiéis.
Pessoalmente, serve para avaliar como está a ser vivido o meu sacerdócio, se o lema: “Fidelidade de Cristo, fidelidade do sacerdote” tem sido por mim vivido. Para este confronto com o ideal de sacerdote e de pároco que sou, muito tem servido o encontro com a Vida de S. Luís de Montfort e do Santo Cura d’Ars, através da visita ao túmulo dos quais peregrinei ultimamente, para pedir a sua intercessão para este sacerdócio de Cristo que me foi confiado pelo sacramento da Ordem.
VNT - Facilmente referimos que a Igreja está em crise. No entanto, todos nós, Homens e Mulheres devemos ser as “Pedras Vivas” dessa mesma Igreja. Que mensagem gostaria de deixar às famílias, às comunidades para que emanem vocações ao sacerdócio?
Pe. Delfim – O amor a Cristo, não pode ser separado do Amor à Igreja por Ele deixada como perpetuação da Sua presença e da Sua Missão. Diz bem ao referir que devemos ser pedras vivas, mas por vezes a tendência é sermos consumidores de religião em alguns momentos críticos da vida, deixando de lado esse sentido de pertença à Igreja. Só numa comunidade viva podem surgir vocações ao sacerdócio. Das famílias cristãs, unidas em Matrimónio, depende também o futuro da Igreja e das vocações. Antes de mais, é preciso que as famílias sejam generosas no número de filhos, o que não está a acontecer por motivos vários. Depois que nas famílias, as prioridades sejam as que aproximam de Deus. Só na dimensão espiritual da vida, traduzida na séria celebração dos sacramentos, na oração familiar, na busca da Igreja Paroquial como ambiente vital do ser cristão, podem os adolescentes e jovens amadurecer o gosto pelo Sacerdócio e a Vida Consagrada. Numa palavra eu diria que não faltam vocações sacerdotais, faltam sim famílias cristãs que assumam seriamente viver como prometeram no dia do Matrimónio em Igreja, aceitando a educar os filhos em modo responsável segundo a lei de Cristo e da Sua Igreja. Dificilmente haverá sacerdotes se não tivermos famílias que os amem e os estimem. Muito há que pensar sobre isso, pois ninguém ama o que continuamente é enxovalhado e desacreditado pela leviandade de quem olha a Igreja por vezes mais como uma agência de serviços, do que como uma comunidade de amor, de fé e de vida.
VNT - Vivemos, a vários níveis, tempos muito difíceis. Neste sentido, este ano de 2010 foi decretado como o “Ano Europeu Contra a Pobreza e a Exclusão Social”.
Que mensagem gostaria de deixar a quem mais sofre....
Pe. Delfim - Ao contrário do que nos é propagandeado, o sofrimento faz parte da vida e nada o poderá erradicar, a não ser os gestos de amor responsável que somos chamados a viver. Em ano de luta contra a pobreza, seria bom reflectir sobre uma realidade: não podemos ter tudo, menos ainda, se não lutarmos por isso. O consumismo desenfreado inverte os valores e o assistencialismo, a que muitas pessoas se habituaram, levou à inércia e dependência sem que as pessoas se consciencializem que muito do que são, a elas se deve, no bem e no mal. Estamos em crise, e muitas famílias são vítimas de esquemas económicos onde falta a ética e responsabilidade, mas também é verdade que falta a muitas outras pessoas, a vontade de sair da crise e a “garra” para sair do buraco onde cada vez mais se vão afundando, por comodismo e falta de determinação. O mundo somos nós que o fazemos e não podemos continuamente queixar-nos dos outros. São de lamentar as situações que geram tantas formas de pobreza e exclusão: a dependência de álcool, droga ou da preguiça; a construção de vidas sobre valores efémeros; a praga do divórcio que coloca tantas pessoas em graves dificuldades; a ociosidade; a falta de políticas que fomentem a permanência das pessoas no Interior do país, em vez de as trazer a todas para o Litoral onde não há terra para todos nem condições para todos poderem desenvolver as suas capacidades. A Comunidade Paroquial deverá estar atenta a situações de pobreza e marginalização, “o que fizerdes ao meu irmão mais pequenino a mim o fazeis”, diz Cristo, mas isso não é remédio. É preciso combater as causas e não apenas os efeitos. Devemos incutir nas pessoas valores duradouros e firmes, não a aparência de vidas fáceis mas ocas, onde falta a verdade e coragem para assumir responsabilidades.
VNT - A personalidade da sua vida.
Pe. Delfim – Jesus Cristo.
VNT - O filme da sua vida.
Pe. Delfim – O que será dos meus Filhos?
VNT - O livro da sua vida.
Pe. Delfim – O Amor da Sabedoria Eterna.
VNT - Local que gostaria de visitar.
Pe. Delfim –O Céu, para contemplar a Beleza de Deus.
VNT - Local onde gostaria de viver.
Pe. Delfim – Qualquer um, onde possa amar e ser amado de verdade.
VNT - Que mensagem quer deixar aos leitores do “Viver a Nossa Terra”?
Pe. Delfim – A leitura faz bem, pois por ela nos abrimos aos outros, nos encontramos connosco próprios e desenvolvemos as nossas capacidades adquirindo competências para o serviço a esta humanidade carente de verdadeiros servidores, que sejam sal e luz.
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