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 Professora Arminda Cirne
A Professora Arminda Cirne continua hoje, tal como no passado, a pautar a sua vida com um espírito de entrega e de ajuda ao próximo. Outrora a ensinar os mais pequenos…agora a apoiá-los nas suas dificuldades. Vamos conhecer melhor o seu testemunho de vida.
Viver a Nossa Terra - Apresente-nos Arminda Lemos Cirne
Arminda Cirne – Nasci em Fradelos e aqui vivo.
Professora aposentada há aproximadamente 10 anos, mas ativa noutros projetos.
Sou humilde, nada presunçosa, gosto de passar despercebida, sem protagonismos, não gosto de me expor publicamente; sou generosa a perdoar, mas registo as ofensas; não sei viver sem momentos de silêncio…, mas não estou sozinha, estou comigo e com Deus; não pactuo com a mentira, hipocrisia e falta de honestidade.
O meu lema de vida: “Querer é Poder”.
Como suportes emocionais e guião de vida: Aceitação e Esperança.
Sou casada, mãe de dois filhos maravilhosos, o Rui e a Ana, que me amam muito, respeitam e dão carinho… O José Duarte, meu marido e companheiro de viagem, partilha comigo há 39 anos, de mãos dadas e coração fiel, os sofrimentos, as alegrias somadas e divididas… alimentamos o nosso amor com a grandeza da cruz e a generosidade do perdão…
Procuramos, com o nosso exemplo e testemunho de vida, transmitir aos nossos filhos os valores morais e os sentimentos mais nobres, fundamentais à sociedade (a fé, o amor, a honestidade, a solidariedade e a humildade). Esta foi a herança grandiosa que eu recebi e farei tudo para a poder transmitir (mais do que contas bancárias, apartamentos ou quintas…).
Gostaria de lhes deixar algumas destas minhas pegadas…
VNT - Dos tempos de infância e juventude recorda-se de…
AC - Que feliz a minha infância! Sou a sexta filha de sete irmãos, nascida no seio de uma família de agricultores modestos/remediados onde se vivia um ambiente de amor, paz e alegria; onde aprendi a repartir o nosso pão com os mais necessitados. Recordo as palavras da “Sr.ª Maria dos Bichos”, quando lhe levava a comida e se despedia de mim agradecendo com estas palavras: “tantos anjos te acompanhem quantas areias tem o mar…”.
Cresci, assim, com este exemplo de família, onde também aprendi a cultivar a fé, o amor, a honestidade, a caridade, o respeito e também a ser amparo dos desamparados…
Recordo-me dos serões à lareira, à luz do candeeiro de petróleo, onde umas fiavam o linho e a lã e outras faziam meias, camisolas e xailes.
Depois da reza do terço em família seguia-se a reza “das graças” e terminávamos com a ladainha (sempre recitada em latim, pela minha mãe). A oração terminava com o gesto de pedir a bênção aos pais e à avó.
Fora do seio familiar, recordo as brincadeiras na escola e com as vizinhas a jogar ao “mata”, ao “piolho”, ao “esconde-esconde”, à “macaca” e à “sarna” (que eu detestava quando ficava com ela - o que pouca vezes acontecia, porque eu corria muito…)
Recordo com muita saudade as reuniões da “pré-JAC” e mais tarde o grupo de jovens, aos domingos à tarde no fim da oração do terço ou Adoração ao S. S. Sacramento. Aprendíamos canções lindíssimas (que ainda hoje canto), fazíamos aprendizagens e adquiríamos formação nas reuniões, nos encontros e nos retiros em que participávamos… éramos tão felizes!
Na juventude, recordo com especial carinho a catequese (foi das coisas que mais me custou deixar…).
Recordo, do meu tempo de estudante, alguns professores que me ajudaram e a quem presto uma homenagem de gratidão, as amigas que conquistei e com as quais ainda hoje mantenho uma relação forte e de estreita amizade.
VNT - Que recordações guarda dos anos em que lecionou.
AC – Foram os tempos mais importantes da minha vida! Concretizei um sonho de criança e como “o sonho comanda a vida”…
Ser professora foi muito mais que uma profissão honrosa… Para mim, foi uma sublime missão durante 36 anos (34 nas escolas do 1º ciclo em Fradelos e 2 como Vice-Presidente do Conselho Executivo, a convite da Ilustre Presidente Dr.ª Iolanda Torres, aquando da Implementação do Agrupamento da Escola EB2,3 de Ribeirão, no ano lectivo 2000/2001).
Nas minhas mãos estavam as crianças que, com a entrada na então escola primária, tinham um caminho a percorrer, com as suas primeiras responsabilidades quase sempre necessitavam de algum tempo para se adaptarem: chegavam ansiosos, com alguns receios e talvez também com alguma euforia. Isto exigia muita atenção e cautela, porque eu desconhecia quase tudo acerca da criança: a sua personalidade, a seu temperamento, nível de educação, família, etc.
Havia crianças muito agarradas a contextos anteriores. Os pais eram sempre uma ajuda preciosa. A relação de pais/professor tinha que ser aberta para sentirmos que remávamos para o mesmo lado… Isso nem sempre acontecia e aí faziam-se, às vezes, autênticos milagres.
Sempre me orientei por princípios e regras que colocassem a educação e o respeito em primeiro lugar e só depois transmitia conhecimentos.
Teria uma infinidade de episódios para contar que recordo e não esquecerei nunca.
Mas, de facto, do que mais me orgulho e a confirmar que eu os marquei para o futuro: no final do curso médio ou superior, alguns me reservaram uma fita de curso para ali escrever e deixar a minha mensagem de professora amiga…
Penso ter cumprido em consciência a minha dupla missão de educar e ensinar. Castigos alguns, obviamente, mas penso que maternais.
Os dois últimos anos, na escola de EB2,3 de Ribeirão, foram um desafio interessante que não era previsível nem expectável e que no início me causou muita ansiedade. No entanto, a experiência e a responsabilidade de 27 anos como Diretora de Escola do 1º ciclo foram uma mais-valia que me dava algum conforto e segurança para este novo desafio.
Ali, ganhei muitos amigos e experienciei situações novas. Valeu a pena! Foi um terminar, fechando com “chave de ouro” (modéstia à parte).
VNT - Os professores vivem atualmente momentos de algum desconforto profissional. Que palavras de incentivo gostaria de partilhar com os jovens professores que estão no activo?
AC – Na minha perspetiva e modesta opinião pessoal, os professores de hoje são autênticos heróis… a continuar assim talvez cheguem a “mártires”…
Há necessidade urgente de se reconhecer esta classe, que tem nas mãos a responsabilidade de preparar os Homens de amanhã, está desmotivada, tem sido maltratada por alguns indisciplinados, e assim está sem as melhores condições para ensinar. Ora, os professores merecem todo o respeito e dedicação. Há que fazer mudanças e alguns ajustes no sistema (pelo menos dar mais autoridade aos professores). É urgente! Até lá gostaria de fazer um apelo aos colegas: Não desanimem! Todos os dias o sol nasce e nunca falta (às vezes ilumina menos…). A esperança não pode morrer! Tentem descobrir um grande tesouro escondido que é a inocência de uma criança… Ajudem-nas! Elas sofrem também, sem culpa, com o sistema implementado.
VNT - Como pessoa sensível às questões educacionais partilha da opinião do psiquiatra Daniel Sampaio quando ele diz “ Inventem-se novos pais”, enfatizando a importância do diálogo entre pais e filhos?
AC – Naturalmente, partilho dessa opinião.
Na minha opinião pessoal acredito que a maioria dos pais ama os seus filhos e gosta de os ter consigo.
O stress do dia-a-dia, a responsabilidade do emprego, o receio de o perder, e a incerteza do futuro faz com que os pais de hoje não consigam estar junto dos seus filhos tanto tempo como gostariam e seria necessário.
Mas é tempo dos pais tomaram consciência da sua missão, assumindo corajosamente as suas tarefas e orgulharem-se do seu valor. Não se poupem a esforços em prole da felicidade dos vossos filhos, não apenas com conselhos, mas com o vosso exemplo e testemunho de vida.
Os filhos precisam de ver o amor e harmonia entre os pais, por vezes manifestado num beijo, num abraço, num carinho, no diálogo sereno, nas coisas mais simples do dia-a-dia, no acordar, no deitar e nas refeições em comum.
Precisamos tanto de modelos de famílias bem formadas e equilibradas! A sociedade tanto precisa de gente válida e responsável.
Os pais não se podem demitir das suas responsabilidades e não podemos continuar a ter tantas crianças “órfãos de pais vivos”…
VNT - Baden-Powell, fundador do Escutismo, defendia que “ a ociosidade e a gratificação das inclinações pessoais não dão felicidade – a verdadeira felicidade só se pode alcançar servindo”. Como voluntária, e alguém que se sente feliz servindo o próximo, que mensagem gostaria de deixar para que outras pessoas se motivem a viver neste espírito solidário.
AC - Ainda aluna na “escola primária” várias vezes escrevi esta frase na “caligrafia”: A “Ociosidade é a mãe de todos os vícios”. Não esqueci e durante muitos anos também a adotei como frase na “caligrafia” para os meus alunos.
Nós que nos confrontamos todos os dias com situações de pessoas que alimentam a ociosidade, a essas pessoas gostaria de aconselhar: “Deus alimenta as aves do Céu mas não lhes leva a comida ao ninho”.
Mas a verdadeira felicidade está no “servir” como voluntário. Essa é a experiência de toda a minha vida, com a enorme recompensa de dar felicidade e senti-la sem medida.
Sensibilizar esta sociedade onde se protege os fortes e destrói os fracos parece fundamental, pela inversão da ambição de “Ter” em vez de “Ser”, temos um número demasiado elevado de pessoas de “consciência tranquila” que afinal já não têm consciência…
Quantas pessoas fazem coisas maravilhosas em prole de outros por “carolice”. Porque não dizê-lo pela causa do voluntariado, onde cada um faz logo a diferença…!
Na minha comunidade paroquial faço parte de dois movimentos, onde trabalho com muito amor e dedicação: a Conferência Vicentina, há 35 anos, desde a sua fundação, onde desempenhei o cargo de tesoureira durante 26 anos e a L.I.A.M. (Liga Intensificadora de Acção Missionária), fundada em Fradelos em 1951, e à qual pertenço desde 1967 desempenhando o cargo de Presidente desde 1973.
Além do trabalho nestes movimentos, na minha comunidade paroquial, também sirvo a Igreja de Cristo em alguns ministérios e faço outros pequenos serviços por amor a Jesus.
Sem estes movimentos sentir-me-ia menos feliz e menos realizada na vida. Apesar da minha idade posso afirmar, e afirmá-lo com convicção, que me sinto motivada por uma grande vontade de fazer sempre “ mais e melhor”, em prole dos mais esquecidos, desprotegidos e sem voz. Com estes eu também choro, rezo, vivo as suas alegrias, partilho os seus pequenos sonhos, as suas esperanças e quantas vezes até compreendo o que eles não dizem…
VNT - Personalidade da sua vida
Os meus pais, que foram e serão sempre o modelo da minha vida. Ensinaram-me o que de melhor há para aprender…, até ao fim…
A última e grande lição de vida: Aceitar o sofrimento e a dor à luz da fé com paciência e com amor… já quase sem forças: “seja feita a vontade de Deus e não a minha”…
VNT - Livro da sua vida
Na infância - “o patinho feio” (chorava sempre que o lia), Hans Christian Andersen.
Na adolescência – “Santa Maria Goretti - Mártir da Pureza”, J.C.M. Colombo (padre).
Na Juventude – “O Juiz”, Hall Caine.
Último – “ Kennedy e Salazar, o leão e a raposa”, José Freire Antunes.
Livros de mesinha de cabeceira – Além de “Os cinco minutos de Deus”, a “Bíblia” (onde diariamente reservo à noite algum tempo – especialmente ao livro da “Sabedoria” e aos “Salmos”, que são o meu enlevo e me fascinam…em particular o Salmo 23).
VNT - Filme da sua vida
Ben-Hur.
VNT - Local que gostaria de visitar
Mais alguns! Sem preferência por nenhum em particular.
VNT - Local onde gostaria de viver
Onde vivo, em Fradelos. Como segunda opção a cidade da Póvoa de Varzim, onde estudei e passei alguns anos da minha juventude.
VNT - Quer deixar uma mensagem aos leitores do Viver a Nossa Terra
Com certeza. Para este ano de 2012, que se perspetiva de maus augúrios e muito difícil queria dizer lhes que vale a pena lutar para alcançar a Paz, a Justiça e a Felicidade…
Para os que já caíram no desânimo e lhes falta a coragem de lutar, não desistam! Em cada coração, Deus abre sempre um caminho de Esperança… “Quando se fecha uma porta, há sempre uma janela que se abre…” Este futuro depende da Nossa Coragem!
António Almeida
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