|
"Foram tirados das suas terras, da sua juventude e lançados numa Guerra"
 Cadeias Ferreira
Decorria o ano de 1972, quando este jovem de 21 anos foi chamado para
cumprir o serviço militar. Nesse ano, passou por diferentes quartéis:
Caldas da Rainha, Tavira, Bragança, Santa Margarida e Tancos, onde tirou
a especialidade de Minas e Armadilhas. A ordem de serviço que
sentenciava a sua mobilidade para a Guerra Colonial era esperada a
qualquer momento.
Em Janeiro de 1973, Cadeias Ferreira embarca com destino a Beira, em Moçambique: “Era a primeira vez que andava de avião. Sabíamos para o que íamos, mas não tínhamos propriamente uma ideia...só quando lá chegamos é que vimos aquilo em que estávamos metidos.” O confronto com a realidade deu-se logo à chegada: “O primeiro impacto foi estranho. A própria terra, aquele tipo de vegetação totalmente diferente...”.
Poucos dias depois, o Batalhão de Cavalaria 8420 embarca num avião que os conduziria para Nampula, para preparar uma outra viagem que se seguiria: “Fizemos uma viagem de cerca de 24 horas de comboio, de Nampula para Vila Cabral. Essa viagem foi bonita porque se passava pelo meio da selva e víasse de tudo: alguns animais selvagens, paisagens de uma maravilha...era de facto uma coisa nunca vista!”. Vila Cabral foi, mais uma vez, um ponto de paragem para o destino Metangula, no Lago Niassa: “Íamos render uma outra Companhia, que ia regressar a Portugal. A nossa Companhia era de Comandos e Serviços (CCS) e fazia o reabastecimento às outras Companhias que estavam no mato. Nós levávamos tudo o que fosse necessário, por via terrestre, em colunas militares.”
À chegada a Metangula, Cadeias Ferreira é surpreendido com a ordem de regressar, nesse mesmo dia, a Vila Cabral onde iria treinar um grupo de milícias locais. Aqui, este ex-combatente recorda os seus últimos tempos, pela violência e insegurança: “Fomos integrados em Pelotões que faziam patrulhamento à linha de caminho de ferro. Naquela altura a Frelimo (Frente de Libertação de Moçambique) colocava bombas, fazendo descarrilar os comboios. Então, fazíamos patrulhas à linha, para verificar se não havia explosivos”.
O dia-a-dia era também marcado pelas saudades da família: “Praticamente todos os dias escrevia. O que eu mais pensava era se as pessoas estavam bem.” Neste sentido, a fotografia que Cadeias Ferreira escolhe entre as suas imensas memórias é a que representa a Noite de Consoada de 1973: “Era a primeira Ceia de Natal, que quase todos nós íamos fazer longe da família”. Esta imagem mostra alguns dos 30 militares do seu Pelotão, que se reuniram nessa noite para “pesticar assim em pé, pois não havia condições praticamente nenhumas”. Para Cadeias Ferreira este momento “foi pensado para tentar minimizar a ausência da família” e é sorrindo que descreve: “Comemos, bebemos, e depois de terminada a ceia, cada um foi para os seus locais”.
O ano de 1974 iria trazer novas mudanças. A Revolução dos Cravos não teve efeitos imediatos nos militares em combate: “O 25 de Abril constou-se lá, talvez a 30 de Abril, ou depois. Dizia-se que havia uma revolução em Portugal e que o Governo tinha sido derrubado. Havia também a notícia de que alguns governantes tinham sido exilados... mas nada de concreto”. Do ponto de vista oficial não existia qualquer informação, os militares apenas iam adquirindo conhecimentos através da correspondência com a família. Cadeias Ferreira recorda que recebeu de Portugal uma encomenda surpreendente, enviada pela namorada, actual esposa: “Eram revistas e jornais com as manifestações na rua, o 1º de Maio...Fomos começando a estar mais informados a nível particular, porque a nível oficial, na tropa, continuou tudo no segredo.” As limitadas informações que tinham dos acontecimentos em Portugal, não era a única preocupação: “É que a partir do 25 de Abril começou a haver mais presença activa da Frelimo. Esta começou a ser mais activa e começou a fazer mais ataques. Se houve altura em que começamos a pressentir que estávamos em guerra, foi precisamente depois do 25 de Abril.” Em Agosto de 1974, já em Manica, começou a ser possível iniciar relações de diálogo com a Frelimo: “Os militares mais graduados da Frelimo começaram a entrar no nosso quartel em conversações. Começou a haver uma maior proximidade entre nós e a Frelimo, a haver um diálogo”. Este antigo combatente salienta que foi a partir desta fase que “começou a constar-se que para o fim do ano que íamos regressar a Portugal”. O regresso aconteceu a 7 de Novembro de 1974.
Questionado sobre as suas memórias, Cadeias Ferreira prefere primeiro nomear as positivas: “As viagens pelo meio da selva, tanto de comboio como de coluna militar, como de barco no Lago Niassa...também de patrulhas que fiz a pé. Gostei muito da viagem de regresso de Manica para a Beira, foram cinco dias de coluna militar em que passámos por zona de deserto, zona de floresta, chuva, sol, floresta fechada que não se via nada, aquilo era impressionante. Gostei de atravessar o Rio Zambeze, levámos quase um dia a atravessar o Rio”. Quanto às memórias menos agradáveis, este incide no sentimento de privação da juventude: “Foi sempre negativo aos 20/21 anos tirar um jovem de um meio em que habitualmente se movimentava e mandá-lo para o mato e: «agora desenrasca-te! tens aqui uma arma na mão se precisares dela, usa-a”.
Desta forma, este ex-combatente do Ultramar lamenta a falta de reconhecimento pelos que “foram tirados das suas terras, da sua juventude e foram lançados numa Guerra”. Os militares que combateram na Guerra Colonial “deveriam ser reconhecidos como pessoas que foram úteis à pátria, mas não são reconhecidos por isso, pura e simplesmente estão no esquecimento”.
Por conseguinte, é com satisfação que destaca as iniciativas desenvolvidas pelo Núcleo da Liga de Ex-combatentes da Vila de Ribeirão, na expectativa de que estas contribuam para uma maior valorização dos antigos militares do Ultramar.
Catarina Ferreira
|