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“Não é uma guerra de frente, chamamos nós, uma guerra de traição”
A mobilização do soldado condutor Manuel Braga foi comunicada no Natal
de 1965. A anunciada mobilidade para Guiné-Bissau não encetou conflitos
para o jovem, que embora tivesse preparado a sua estadia no Ultramar,
assegurando as funções de quarteleiro, optou por não comunicar à família
o seu destino: “Os meus pais só souberam quando eu já ia em alto mar.
Só disse ao meu falecido avô e a uma irmã...na partida mesmo.”
 Manuel Gonçalves
Após uma viagem de seis dias de barco, Braga e a sua Companhia avistam Bissau ao largo, já que para chegar a terra era necessário embarcar em pequenas lanchas: “Aquilo é um braço de mar largo e depois entramos no esquema dos 2 rios: o Rio Corubal e o Rio Geba. Se à entrada desses rios tivermos espaço suficiente para andar consegue-se subir, se não, temos de parar e esperar.”
A recepção foi calorosa, este ex-combatente recorda que foram recebidos pela população local com alegria: “O barco encostou, vieram logo pessoas receber-nos, a bater palmas! E as lavadeiras, logo a procurar um dinheirinho.”
De Bissau, a Companhia de Caçadores 1551 parte para Bambadinca, no interior da Guiné, onde encontraram já algumas “tabancas”, designação derivada do crioulo para “aldeia”. Questionado sobre o primeiro impacto em terras desconhecidas, Braga afirma: “A primeira coisa que me lembro foi, passados 4 ou 5 dias, aparecer logo uma carrada de mortos no Quartel. Chegaram todos encaixotados. Posso dizer que fui o primeiro choque que tive na minha vida.”
Manuel Braga assinala também os tempos em Bafatá, bem como a mudança da Companhia para o Xitole, onde permaneceram seis meses. Desta fase, relembra as viagens a Saltinho (um lugar no leito de um rio rochoso, rodeado de selva) onde um dia deram dois camaradas como desaparecidos: “Andámos à procura deles mas nunca os encontrámos. Não se sabe se foram os crocodilos ou se foram capturados.” No conjunto de episódios negativos, relembra ainda “o maior ataque da minha vida, em que morreram 13 pessoas.” O ataque, que poderia ter começado mais cedo não fosse o aviso de uma lavadeira, perdurou longas horas até à chegada de reforços e do “helicóptero para começar a carregar os feridos.”
A fotografia escolhida por este antigo combatente, para representar a sua participação na Guerra Colonial é precisamente no Xitole: “Quando queríamos ir para qualquer lado, de GMC (uma camioneta), ao sair do Quartel, parávamos e levávamos as crianças todas que por ali andavam. Eles próprios vinham e pediam para os levar. Carregávamos as crianças todas, porque assim, sabíamos que não éramos atacados. Se fossemos sozinhos estávamos sujeitos a ser atacados.”
Indagado pelas memórias mais e menos positivas, Manuel Braga é categórico “Ninguém faz ideia, o que lá se passava. Quem saía para o mato, andava dias e dias com a mesma roupa. Roupa cheia de lixo e bichos. O que comiam eram as rações de combate, que por vezes eram lançadas de helicóptero. A água tinha de ser filtrada nas próprias roupas, porque no mato era só aguas paradas, e mesmo que levassem um cantil cheio, não chegava para nada. Eles tinham de filtrar a água na roupa e chupavam a água nos lados.”
Este reforça que sempre sentiu a Guerra como incorrecta: “Foi uma guerra subversiva... não é uma guerra de frente, chamamos nós, uma guerra de traição.” Contudo, ressalva: “a sorte que tive, que outros colegas não tiveram. Era todos os dias, carregados de armas sempre a entrar e a sair.” Neste sentido, envia a todos “os tropas” muitas forças para as dificuldades que estão a passar: “Tenho um espelho na minha Companhia... aquilo era mau”. Apesar disso, Braga termina afirmando: “Agora que já passaram alguns anos tenho de arranjar alguém que vá comigo fazer uma visita. Ver como aquilo está.”
NR: Por lapso, na primeira edição não foram devidamente referenciados os números apresentados relativamente às Forças Armadas Portuguesas na Guerra Colonial. Estes dados estatísticos foram retirados dos seguintes sites: http://www.historiadeportugal.info/guerra-colonial-portuguesa/ (número de mortos);
http://www.guerracolonial.org/specific/guerra_colonial/uploaded/graficos/estatiscas/efectivos.swf (número de efectivos).
Catarina Ferreira
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