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Principal Fradelos “Os livros actuais são demasiado brincalhões"
Clube de Cultura e Desporto de Ribeirão | Segunda, 06 Fevereiro 2012 |
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“Os livros actuais são demasiado brincalhões" |
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Sexta, 25 Janeiro 2008 |
 Professora Ercília Costa Professora durante 42 anos (entre 1940 e 1982), tendo estado dez deles
em Fradelos, Ercília conta actualmente com a rica idade de 90 anos.
Motivo de homenagem pelas suas ex-alunas, falou-nos das suas
experiências de professorado quer no magistério primário quer no ensino
preparatório e secundário.
Certamente que no tempo da sua juventude, os tempos eram outros… Porque escolheu ser professora? Escolhi ser professora por vocação e pelo factor económico. Para ganhar independência. Naqueles tempos era-se professora por vocação, ou havia outras razões? Outras razões. Quer a minha mãe quer a minha irmã eram professoras. Era um curso com muito prestígio, que valorizava bastante as raparigas.
Provavelmente tem acompanhado a evolução do ensino. Agrada-lhe o estado actual? De forma alguma, embora tenha facetas que devidamente trabalhadas trazem muito bons resultados.
Onde estão as reguadas dos outros tempos? Fazem falta? Não me lembro de reguadas, lembro-me bem da boa educação e disciplina.
E o giz que deu lugar ao marcador, ou então o quadro de lousa que vai dando lugar aos multimédia… Trouxe grandes vantagens, não só pela higiene mas também pela facilidade de aprendizagem. Entende que o papel do professor/educador é bem diferente ontem e hoje? Sim, uma diferença abismal!
Quer-nos contar algum episódio curioso que a tenha marcado na sua carreira de docente? Faria um interessante livro e talvez um bom livro de grande interesse educativo, tantos são os casos que nós professores podemos contar. Este episódio que vou contar foi passado já nos últimos anos da minha profissão, aqui em Famalicão. Eu ensinava os alunos e à ida embora davamos as boas tardes. Eu estendia a mão e eles cumprimentavam-me, para acabar com o beijinho. Até amanhã senhora professora, até amanhã Manuel ou António… até que chegou um aluno ao qual eu estendi a mão e ele ficou assim um bocadinho e disse: hoje a aula foi igual a …(e fez-me um zero com os dedos). Eu disse: realmente… Ele ia a dar um passo, voltou para trás e disse: mas a senhora professora hoje está doente não está? Eu disse: estou muito doente. Estava cheia de febre. E realmente ele notou que a aula não prestou. Achei engraçado aquele miúdo com facilidade, está a ver o convívio que eu tinha com os alunos, com a delicadeza toda dele, que deixou passar os outros à frente para me dizer isto…
O aluno que mais a marcou pela positiva e o que a mais marcou pela negativa. Não tenho uma lembrança forte para os nomear. Todos me marcaram muito pela positiva.
Durante as várias gerações de alunos, seguiu-lhes o trajecto ou perdeu-lhes completamente o rasto? Tive de tudo, mas, hoje mesmo, com 90 anos, ainda me recordo os nomes e mesmo as qualidades morais e físicas de muitos deles e até as suas brincadeiras de crianças.
Muito recentemente foi motivo de uma homenagem pelas suas ex-alunas. É sinal que ficou alguma marca… Sinto-me muito emocionada, pois a sua presença foi o maior testemunho do muito que elas guardaram de mim.
Há dias numa tese de doutoramento de uma professora, a mesma concluía que os livros do 4º ano de escolaridade são pouco exigentes. Será que os compêndios actuais são de facto mais permissivos, mais “leves”, mais… fáceis? Entendo que os livros actuais são demasiado “brincalhões”, para que a criança comece a ter vontade de pensar em fazer um raciocínio de tirar uma conclusão. Têm um fraco valor educativo. Têm muitas figurinhas, perguntas que não interessam precisamente para nada, que estão ali para os obrigar a ler mas não têm realmente o valor dos compêndios do meu tempo.
Há segredos para se atingir uma idade tão bonita? Sim, viver com harmonia, acolher os outros com um sorriso que signifique amizade e afecto. Aceitar a vida com uma certa alegria e um sentido de humor, porque aproveitando os bons momentos que a vida nos dá é preciso vivê-los intensamente para arranjarmos coragem e força para quando vierem os momentos de adversidade a gente ter calma suficiente para os aguentar e ter sempre um sorriso para os outros. Talvez sofram mais do que nós.
A personalidade da sua vida. As personalidades são: minha mãe pelo muito amor e conhecimentos que ela me soube transmitir e que passou para mim para eu chegar onde cheguei, e o meu marido que sempre me soube aconselhar como um bom camarada, como um bom amigo, como um irmão e quase como um anjo da guarda.
O filme da sua vida. Guerra e Paz
O livro da sua vida. As vinhas da Ira.
Local que gostaria de visitar. Dinamarca
Local onde gostaria de viver. Suíça.
Quer deixar alguma mensagem aos leitores do “Viver a Nossa Terra” e particularmente aos professores? Todo o trabalho que se faça com amor e boa vontade, cansa menos, torna-se agradável e os resultados são bons e atingem-se mais rapidamente. Depois, é só dizer com um sorriso: até que enfim, acabei.
Coordenação: Victor Ribeiro |
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