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Principal Ribeirão "Personalidades são as pessoas que cumprem o seu dever"
Clube de Cultura e Desporto de Ribeirão | Terça, 07 Fevereiro 2012 |
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"Personalidades são as pessoas que cumprem o seu dever" |
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Sexta, 23 Maio 2008 |
 Maria Madalena Araújo Recordamos a professora D. Madalena, a comemorar noventa anos de vida,
que ensinou e certamente marcou várias gerações de meninas de Ribeirão.
Leccionou na escola feminina de Santa Ana durante trinta e oito anos,
curiosamente sempre numa sala paga por seu pai, Manuel Pereira Araújo,
como era comum acontecer durante o Estado Novo. Sendo natural de
Ribeirão, vive actualmente em Braga mas mantém vivas as suas
recordações e a ligação à sua terra natal.
Certamente que no tempo da sua juventude, os tempos eram outros... Porque escolheu ser professora? A minha formação liceal era de Ciências, com intenção de seguir o curso de Farmácia. Depois do 7º Ano (antigo) optei pelo ensino. Nessa época as Escolas do Magistério estavam fechadas, não sei porquê, talvez para reestruturação. Havia falta de professores. Fiz um estágio de 6 meses em Braga e fui admitida no Ensino.
Naqueles tempos era-se professora por vocação, ou havia outras razões? Foi por vocação, porque gostava de ensinar crianças. Não foi por razões económicas, pois ganhava-se pouco. Lembro-me que no 2º ano como professora fui colocada em Ronfe, ganhava 450$00 e pagava de renda 405$00, por mês.
Provavelmente tem acompanhado a evolução do ensino. Agrada-lhe o estado actual? Não me agrada. Pelo que dizem, os alunos já não estudam como naquele tempo, distraem-se mais com outras coisas, com jogos, televisão... A educação não era só dos livros. Eu ensinava outras noções de higiene, anseio e economia. É que as crianças aprendem, se ensinadas, e depois deve-se exigir…
Será que os programas actuais são mais permissivos, mais “leves”, mais... fáceis? Onde estão as reguadas dos outros tempos? Fazem falta? Nunca dei reguadas. Alguns pais pediam para castigar e acho que, na ocasião devida, a criança deve ser castigada ou premiada.
E o giz que deu lugar ao marcador, ou então o quadro de lousa que vai dando lugar aos multimédia... Não me posso pronunciar sobre informática. É verdade que usava o giz de várias cores e também letras de madeira, móveis, para construir palavras. Era a época dos cadernos de duas linhas para ajudar a caligrafia. Tinham uma letra bonita. Entende que o papel do professor/educador é bem diferente ontem e hoje? É diferente. Acho que agora não há tanta exigência. Eu era muito exigente no trabalho que lhes pedia.
Quer-nos contar algum episódio curioso que a tenha marcado na sua carreira de docente? Tenho muitos episódios. Algumas alunas eram muito vaidosas do seu trabalho com letra muito bonita, cadernos muito limpos. Mostravam-no aos pais que não acreditavam que fosse das filhas e vinham confirmar comigo. Nas férias vinham ter comigo para saber quando começavam as aulas. Claro que ficava muito contente naquelas situações.
Tendo sido muitos anos professora de meninas, que pensa do facto de nesses tempos haver escolas com salas para raparigas e salas para rapazes? Em Ronfe tive sala mista e os rapazes eram muito educados. Em Vieira do Minho, no 3º ano e depois em Ribeirão, foi sempre sala apenas constituída por raparigas. Gostava mais de ensinar meninas. No final da carreira já ensinava as filhas das primeiras alunas que conheciam bem o meu método de trabalho e pediam para que continuasse. Naquela época também havia pais exigentes…
Houve algum aluno/aluna que mais a marcou pela positiva e que mais a marcou pela negativa...? Tenho muitas e boas lembranças de muitas alunas que, com certeza, também se recordarão. Não vou nomear ninguém, mas lembro que muitas estavam sempre prontas a participar nas aulas. Não recordo nada de negativo. Não tive nenhuma aluna mal educada em toda a minha carreira docente.
Durante as várias gerações de alunos, seguiu-lhes o trajecto ou perdeu-lhes completamente o rasto? Durante quase 40 anos de serviço, com turmas de 40 alunas, recordo-me dos nomes e profissões de algumas que continuaram os estudos e outras que não. Infelizmente, a maior parte não continuou a estudar e eram boas alunas. Naquela época, prosseguir estudos era difícil para muita gente.
Tendo vivido vários anos no Bairro generosamente construído para os pobres pelo seu tio Mons. Abílio, que pensa do seu estado actual? Como gostaria de o ver? Vivi no Bairro 10 anos, juntamente com uma tia, irmã do Mons. Abílio e ele próprio viveu algum tempo, depois de deixar de ser Reitor do Santuário do Sameiro e antes de ingressar na Ordem do Sagrado Coração de Maria, em Lisboa. Ouvi dizer que está em mau estado. Precisa de manutenção para continuar a servir a sua função.
Residindo há vários anos fora de Ribeirão, tem acompanhado a evolução que por cá vai havendo? Que pensa sobre isso? Quer nas minhas idas a Ribeirão, quer perguntando às pessoas que me visitam, estou informada das obras e melhoramentos de ruas, da Igreja, do Centro Social, etc. Fico muito contente com a evolução da Vila.
Há segredos para se atingir uma idade tão bonita? Tento viver em paz e harmonia com os outros e com Deus e também fazer uma alimentação regrada. Uma senhora dizia que o segredo era: “pouco garfo, muito sapato e muita missa”… Gosto de andar a pé pela cidade de Braga, passeio pelo jardim de Santa Bárbara, vou até à Sé, à Avenida Central, quando está bom tempo…
A personalidade da sua vida. Para mim há várias: são as pessoas que cumprem o seu dever. Por exemplo: Madre Teresa de Calcutá, o Padre Américo, que conheci pessoalmente…
O filme da sua vida. Os filmes portugueses com o Vasco Santana – são muito divertidos. Gostei do “Quo Vadis”.
O livro da sua vida. De entre os escritores portugueses, destaco Júlio Dinis e “Uma família inglesa”.
Local que gostaria de visitar. Não tenho nenhum interesse em visitar um lugar em particular. Visitei a Itália duas vezes, Terra Santa, Suiça, Espanha e os Açores que são de uma beleza inesquecível.
Local onde gostaria de viver. Em Portugal e aqui no Lar de Santa Cruz. Não trocava Portugal por qualquer outro país.
Quer deixar alguma mensagem aos leitores do viver a mossa 1 erra’ e particuiarmente aos professores? Que tenham gosto na sua profissão. No meu entender, os problemas da educação estão na família, sociedade em geral e nos programas e não nos professores. Desejo que tenham muita paciência. |
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