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Clube de Cultura e Desporto de Ribeirão | Quarta, 08 Fevereiro 2012
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Na primeira pessoa, com Deolinda Silva PDF Imprimir E-mail
Terça, 24 Fevereiro 2009
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Deolinda Silva

Nome: Deolinda Morais da Silva
Idade: 63 anos
Escolaridade: 11º ano
Profissão: Exerci o cargo de Chefe dos Serviços Administrativos, na Escola C+S de Ribeirão (Agrupamento de Escolas de Ribeirão)
Que cargos ocupou:
Secretária da Junta de Freguesia
Tesoureira da Junta de Freguesia
Deputada da Assembleia Municipal
Membro da Comissão de Protecção de Crianças e Jovens em Risco
Juíza Social
Vice-Presidente e Presidente do Núcleo da Cruz Vermelha de Ribeirão
“Viver a Nossa Terra” - Talvez para as gerações mais jovens, não seja uma pessoa muito conhecida. Afinal quem é Deolinda Silva?
Deolinda Morais Silva - É natural que nem toda a gente me conheça. Afinal vivi em Ribeirão apenas 25 anos. Concordo que as camadas jovens talvez nunca tenham ouvido falar de mim. Os jovens têm outro tipo de preocupações.
Vou então tentar explicar quem sou eu!
Natural de Vilar de Perdizes, uma aldeia transmontana do Concelho de Montalegre, bem pertinho da Serra do Larouco.
Cresci no seio de uma família de pequenos lavradores, com algumas limitações a nível económico e social. Fui estudar para a Escola Industrial e Comercial em Chaves, onde fiz o ensino secundário. Em 1964, fui residir para Luanda – Angola, onde vivi 10 anos. Regressei em 1974, após o 25 de Abril. Vivi o processo de descolonização e sofri directamente os seus efeitos. Como pertencia ao Quadro Geral de Adidos, fui colocada na Escola Secundária do Entroncamento, onde exerci o cargo de Chefe dos Serviços Administrativos.

VNT – Não sendo natural de Ribeirão, viveu, trabalhou e exerceu a sua cidadania cá...
DMS - Não sou natural de Ribeirão mas Ribeirão foi a terra que adoptei para viver um longo período da minha vida. Foi em Ribeirão que trabalhei, que construi casa e é a terra onde vivem os meus filhos e os meus netos.
Em 1982, fui colocada na Escola C+S de Ribeirão, como Chefe dos Serviços Administrativos. Fui a 1.ª Funcionária a fazer parte do Quadro da Escola e acompanhei todo o processo de instalação, até porque fazia parte da Comissão Instaladora.
Tenho em Ribeirão raízes profundas a vários níveis. Participei activamente na Sociedade Ribeirense, a nível político e de voluntariado. Tenho consciência de que fiz por Ribeirão mais do que alguns naturais e muito mais do que pela minha terra natal.

VNT - A grande obreira da instalação do núcleo da Cruz Vermelha em Ribeirão foi a senhora…
DMS - Obreira? Obreira, talvez não! Ninguém consegue construir uma obra sozinho.
Em relação à Cruz Vermelha, nem a ideia da criação foi minha mas… ideias são isso mesmo… ideias. Para que elas se tornem realidade, é preciso concretizá-las. Foi isso que eu fiz! Concretizei a ideia da instalação da Cruz Vermelha em Ribeirão. Naturalmente que, como já referi, não o fiz sozinha, embora em muitos momentos me sentisse só. Estiveram comigo os colegas da Direcção, os Socorristas, as Empresas, a população e sobretudo, o Município de Vila Nova de Famalicão. Pelo caminho encontrei muitas dificuldades, enfrentei muitas críticas e muitas calúnias. Passei muitos momentos de preocupação.
As críticas vindas de pessoas que desconheciam a estrutura e o funcionamento da Cruz Vermelha não me afectaram minimamente mas… críticas vindas de pessoas que trabalhavam comigo, que viveram de perto a minha luta, esses, devo confessar-lhe que me magoaram muito. Ainda hoje, pessoas que desempenharam cargos de responsabilidade na Direcção a que presidi, pessoas que controlavam as verbas do Núcleo, fazem comentários graves a meu respeito.
Mas nem tudo foi mau! Tive colegas da Direcção que me ajudaram muito, tive outros que acreditaram em mim e estiveram comigo até ao último minuto. Devo dizer-lhe que nem todos eram do meu Partido Político. A Cruz Vermelha não tem política e eu consegui provar isso. Os Socorristas da Unidade de Socorro estiveram comigo em todos os momentos, sobretudo quando a situação financeira se complicou. Eles participaram activamente em tômbolas, feiras, sorteios, peditórios, leilões, etc. Jamais esquecerei a dedicação desses corajosos jovens.
Tenho consciência de que se tivesse levado uma vida parasitária, se tivesse ficado no anonimato, não teria sido julgada, nem teria sido caluniada mas   o meu trabalho não teria sido reconhecido e não teria marcado a diferença. Devo confessar-lhe, que sinto um orgulho silencioso por os Organismos Oficiais terem reconhecido o meu trabalho. Refiro-me ao Município de Famalicão, à Junta de Freguesia de Ribeirão, ao Jornal Viver a Nossa Terra e tantas e tantas pessoas que me manifestam, ainda hoje, o seu reconhecimento pelo trabalho que desenvolvi no Núcleo da Cruz Vermelha de Ribeirão. A todos a minha gratidão.

VNT - Até que chegou o tempo da aposentação, mas não de parar. Porquê?
DMS - Sim! De facto a Aposentação não significa parar, pelo contrário, eu acho que é uma fase onde podemos realizar os sonhos adiados ao longo da nossa vida. Eu gosto de “matar” o tempo antes que o tempo me mate a mim. Gosto de desafios, de testar as minhas capacidades, de descobrir os meus limites. Gosto de saber quem sou.

VNT - Na generalidade, as pessoas têm um mau conceito da seriedade dos políticos. Pensa que têm razão?
DMS - A política é constituída por homens e mulheres perfeitamente normais, com defeitos e qualidades. Naturalmente que, quando esses homens e mulheres fazem parte da política, os defeitos e qualidades mantêm-se e por vezes até se acentuam, porque as solicitações, as pressões e as tentações são muitas e, por vezes, o conceito de valores altera-se.
Todos nós acompanhamos diariamente através dos órgãos de comunicação social, o comportamento dos nossos políticos e, a meu ver, eles têm a responsabilidade de nos darem exemplos mais positivos.

VNT – Os valores que sempre pautaram a sua vida (solidariedade, serviço ao próximo, disponibilidade…) ainda são actuais?
DMS - De facto, uma parte de mim é solidária e está sempre disponível para ajudar o próximo porque na solidariedade sinto Deus mais perto. Neste momento não estou ligada a nenhuma Associação de Solidariedade Social. Existem alguns projectos mas ainda nada de concreto.

VNT – Mesmo não sendo propriamente uma devota da religião…
DMS - Não sei o que é para si, ser devota da religião. Talvez não seja uma devota tradicional. Isso é um facto, mas o Deus que eu adoro está em todo o lado – em casa, na rua, no café, na praia, no campo, em todos os lugares onde me movimento, porque Ele está presente na pessoa que tem fome, que tem frio, nos excluídos da Sociedade, nos sem abrigo, nos idosos maltratados, nas crianças exploradas. Ele está sempre presente e dá sentido à minha vida! Respeito as pessoas que precisam de ir à Igreja. Eu também lá vou quando tenho necessidade de falar com Deus e ter com Ele uma conversa mais séria. Agradeço-lhe sempre os bons e os maus momentos. Peço ajuda para os meus familiares e amigos, mas peço sobretudo para os meus inimigos. São eles que precisam de orientação, compreensão e condescendência.

VNT – Sendo há muitos anos colaboradora do nosso jornal, tem também uma grande paixão pela poesia. Para quando nova publicação?
DMS - Tenho muito orgulho em colaborar com o jornal “Viver a Nossa Terra”, porque tenho muito respeito pelos assuntos e pelos projectos desenvolvidos.
Sei bem das dificuldades e das incompreensões porque passam os dirigentes. Hoje não é fácil ultrapassar situações e vencer desafios. Sim, é verdade! A escrita é a minha paixão. Gosto muito de ler, mas escrever ajuda-me a respirar melhor. Dá-me segurança, dá-me compreensão, dá-me lealdade, dá-me transparência, deixa-me ser o que sou. Escrever é a oportunidade que tenho de voar mais alto.
Quanto a publicações, tenho dois livros para terminar, mas não são de poesia. Acredite que tenho o tempo tão ocupado, que não me tem sido possível acabar este trabalho que considero importante.

VNT - Como vê a evolução de Ribeirão desde os tempos da vinda para cá?

DMS - Ribeirão não é mais aquela aldeia que conheci há quase 30 anos. Quando passeio pelas suas ruas a imagem de outros tempos vêm à superfície. De facto, muita coisa mudou. Ribeirão desenvolveu-se, transformou-se e modernizou-se. Agora que estou um pouco afastada, quando visito Ribeirão, a comparação torna-se evidente. Ainda tem algumas carências, mas já muito foi feito e como é evidente, muita coisa há ainda para fazer, mas a transformação é notável.

VNT – A sua terra Natal, Vilar de Perdizes, é conhecida unicamente pelo Pe. Fontes e pelo Congresso de Medicina Popular?
DMS - É verdade! A minha terra é conhecida a nível nacional e até internacional, pelo Congresso de Medicina Popular, promovido pelo senhor Padre Fontes. Neste Congresso, confronta-se o religioso com o profano. O Ocultismo domina e a charlatanice também acontece. É um cruzar de conceitos, convicções, crenças, fanatismo, mesinhas e cartomancia. Os chás de ervas naturais apresentados pelos habitantes da aldeia fazem concorrência a todas estas crenças. Nestes dias, a aldeia transforma-se e ninguém fica indiferente a este evento. Quantidades de pessoas e de carros, fazem-nos esquecer do lugar onde estamos. Os restaurantes e os cafés não conseguem satisfazer tantos clientes, que se deslocam para Montalegre e Chaves, para fazer as suas refeições.

VNT – Sabemos que tem uma vida muito activa na sua freguesia. Quer especificar?
DMS - Não tão activa como desejaria ou como estava habituada. Aqui tudo se realiza a uma velocidade diferente. Tudo acontece em tamanho reduzido. Há tempo para tudo. Sou Presidente da Assembleia de Freguesia, Deputada da Assembleia Municipal de Montalegre e, até há pouco tempo, fiz parte da Associação da Defesa do Património de Vilar de Perdizes. Estou a desenvolver um projecto agrícola que ocupa quase todo o meu tempo. Preparar o espaço que fica entre um terreno e uma mini-quintinha, para nele instalar uma linda casa de campo. É um lugar paradisíaco e é o meu desafio mais recente.

VNT - Que sonho gostaria de concretizar ou ver concretizado em Vilar de Perdizes?
DMS - Vilar de Perdizes, como a maioria das aldeias transmontanas, tem uma população envelhecida. Um dos meus sonhos é a construção de um Lar para a 3.ª idade. Já existe um Centro de Dia, mas o Lar é uma necessidade urgente.

VNT - A personalidade da sua vida.
DMS - A personalidade que eu admirei sempre é a Madre Teresa de Calcutá.

VNT - O filme da sua vida.
DMS – “Jesus Cristo Superstar” e o “Titanic”.

VNT - O livro da sua vida.
DMS – “Zahir” de Paulo Coelho.

VNT - Local que gostaria de visitar.
DMS - Os lugares onde Jesus Cristo viveu.

VNT - Local onde gostaria de viver.
DMS - Gosto muito de viver aqui. Aqui está a minha história, que me fala da infância e da adolescência. Em nenhum lugar do mundo encontro estas marcas.
Aqui estão as minhas raízes.

VNT - Quer deixar alguma mensagem aos leitores do “Viver a Nossa Terra”?
DMS - Sim! Quero.
Que colaborem com as Associações de Ribeirão. Que não critiquem sem motivo. Que se unam para desenvolver a Freguesia. Que se entreajudem para ultrapassar a crise económica em que o País mergulhou.
Victor Ribeiro
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