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Principal Ribeirão Na primeira pessoa, com Esmeraldina Carneiro
Clube de Cultura e Desporto de Ribeirão | Quarta, 08 Fevereiro 2012 |
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Na primeira pessoa, com Esmeraldina Carneiro |
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Terça, 26 Maio 2009 |
 Esmeraldina Carneiro Esmeraldina Carneiro, desde a primeira hora pertencente à equipa redactorial do “Viver a Nossa Terra” com colaborações mensais, após recente aposentação fala-nos de todo o tempo do mundo para se dedicará poesia, ao teatro e à decoração.
Viver Nossa Terra – Certamente que no tempo da sua juventude, os tempos eram outros... Porque escolheu ser professora? Esmeraldina Carneiro – Quando estava a tirar o curso de História, era (e ainda sou) uma apaixonada pela Arqueologia. Cheguei a trabalhar no museu da Etnologia na inventariação de materiais, visitas guiadas, e estive em campanhas de escavações em vários locais do país. Fiz a minha tese de Licenciatura em Arqueologia e História de Arte, e pensei mesmo seguir a carreira de investigação. No entanto, a vida por vezes troca-nos as voltas. Quando acabei o curso, vim viver para Ribeirão e tive de abandonar essa ideia. Comecei a dar aulas. Hoje não me arrependo de ter enveredado pelo ensino, pois sempre gostei de conviver e ensinar os meus alunos, com quem sempre tive um óptimo relacionamento. Sinto-me contente, pois acho que dei um bocadinho de mim própria, ajudando-os a singrar na vida.
VNT - Lembra-se de algum episódio curioso que a tenha marcado na sua carreira de docente? EC - Durante a vida de professora tive muitos episódios engraçados que se passaram, mas o que eu mais gosto de recordar, é folhear um pequeno “dossier” onde guardo pequenas lembranças, cartões, cartas, oferecidos pelos alunos, pequenos gestos de amizade que me sensibilizam e, quando o esfolhei-o sempre me enternecem.
VNT - Quer-nos contar uma(s) experiência(s) gratificante(s) na sua vida de professora? EC – Tenho muitos momentos gratificantes na minha vida de professora. Um dos que mais me marcou, foi ter dado aulas a uma menina invisual, que todos os dias vinha com a sua pequenina máquina de escrever e durante toda a aula, se ouvia o tic-tac a tirar apontamentos. Nessa altura em que não havia Ensino Especial nas escolas, pouco apoio tinha para a acompanhar. Com a ajuda dos pais e da irmã mais velha ela ultrapassou todas as dificuldades. Era a melhor aluna da turma e para mim foi uma experiência única.
VNT - Entende que o papel do professor/educador é bem diferente ontem e hoje? EC – Sem dúvida nenhuma. No tempo em que comecei a leccionar havia muito mais respeito, educação e responsabilidade por parte dos alunos que ouviam o que o professor dizia e pouco intervinham. No entanto eram mais cumpridores nas tarefas da aula e de casa. Havia também mais preocupação dos pais em acompanharem os filhos na sua evolução escolar. Hoje nada disso se enquadra, num mundo com uma dinâmica completamente diferente. Os alunos hoje têm muitas solicitações, e apesar de lhes facultarem mais meios educativos, como o computador, as bibliotecas, aulas de apoio e tudo o mais, não os sabem ou querem aproveitar. O professor hoje tem de se desdobrar em transmitir conhecimentos, arranjando as mais variadas estratégias, desenvolver-lhes competências e prepará-los para a vida cada vez mais competitiva. Tem de lhe incutir valores que se estão a perder, como a responsabilidade, iniciativa, valorização do trabalho, sentido de justiça, etc. A falta de acompanhamento em casa por parte de alguns Encarregados de Educação, ocupados também com o seu trabalho, também dificulta o trabalho do professor, pois é em casa que começa a educação, incentivar para o estudo e preparação para a vida cada vez mais difícil. Hoje exige-se muito do professor, daquele professor que é assíduo, que se esforça para ensinar os alunos, que os acarinha quando qualquer coisa corre mal, mas também os chama a atenção por alguma incorrecção, que o ajuda a resolver problemas próprios da sua idade, que o aconselha, etc., etc. Este trabalho, tão dignificante é muito pouco valorizado. Claro que há excepções, mas não se pode tomar a parte pelo todo.
VNT - Provavelmente tem acompanhado a evolução do ensino. Agrada-lhe o estado actual? EC – O nosso ensino está numa fase de grande confusão. Fizemos grandes mudanças em muito pouco tempo, e ainda não houve ainda “espaço” para assimilar tanta coisa. Por outro lado, há uma grande desmotivação dos alunos que para eles a escola não é um local de trabalho, de valorização, de camaradagem, de convivência, mas sim um local onde estão, porque são obrigados. Quando chegam ao 9º ano (os que chegam) muitos não sabem o que querem fazer na vida. Na realidade, em parte têm razão: para quê tirar um curso, e no final não têm emprego! Daí a desmotivação, a desconfiança e abandono escolar, que é preciso combater e incutir a ideia nos nossos jovens que é através do esforço e trabalho que se consegue o sucesso.
VNT – Sempre demonstrou uma sensibilidade especial para algumas artes: a poesia, o teatro, a decoração... Como explica estas tendências artísticas? EC – Sim, na realidade sempre gostei de escrever, fazer teatro, de música, de flores, etc. Em parte este gosto já é inato, e por outro devo esta motivação ao meu pai, que era um auto-didacta, lia muito, gostava muito das artes, do coleccionismo e principalmente da música (fez parte da 1ª tuna de Ribeirão). A ele devo o gosto pela leitura, pois desde pequena me oferecia livros, dos quais ainda hoje conservo alguns. Também fui educada num colégio como aluna interna. Para ocupar o tempo livre, ensinavam-nos tudo: desde o teatro, música, canto, bordados passando pela culinária e enfermagem, etc. Nas festas do colégio colaborava sempre nas peças de teatro, ou escrevendo pequenos poemas que recitava. Isto motivou e desenvolveu o gosto por tudo o que está ligado ao que me dá prazer de fazer.
VNT – Pelo teatro tem uma predilecção especial e mesmo aposentada continua na escola EB 2,3 de Ribeirão a dinamizar o grupo “Duques e Cenas”... EC – Como já referi gosto muito de fazer teatro, escrever pequenas peças, mas prefiro trabalhar com alunos em teatro. Era a coordenadora do Clube de Teatro “Duques e Cenas” há já algum tempo, com a colaboração de mais duas colegas. Quando me aposentei, fui convidada pela professora Iolanda Torres, Presidente do Conselho Executivo, para continuar a dar colaboração no Clube e por cá fiquei. Quem trabalha por gosto não cansa, e é o que acontece comigo. Devido à equipa que temos a trabalhar no Clube (professores e alunos) temos apresentado várias peças na escola, e recentemente representamo-la no Festival de Teatro Amador que se realizou no Centro de Estudos Camilianos e na “1ª Amostra de Teatro Escolar” na Casa das Artes, onde tivemos grandes elogios pelo papel representado pelos nossos pequenos mas grandes actores.
VNT – Desde a primeira hora foi sempre uma entusiasta da participação dos ribeirenses nas Marchas Antoninas... EC – Também é verdade. Tudo o que possa enaltecer e representar bem a nossa terra, e ocupar a nossa juventude de uma forma sadia e divertida, eu sou a primeira a apoiar essas actividades. Dá muito trabalho, mas no fim temos tido o prémio e isso incentiva-nos a continuar. Além disso é necessário não deixar esquecer as tradições, pois são a alma do povo e há que preservar tudo o que nos identifica.
VNT – A personalidade da sua vida. EC – Madre Teresa de Calcutá.
VNT – O filme da sua vida. EC – “E tudo o vento levou”.
VNT – O livro da sua vida. EC – “E a Bíblia tinha razão…” e os livros de Eça de Queirós.
VNT – Local que gostaria de visitar. EC – O Egipto.
VNT – Local onde gostaria de viver. EC – Onde vivo, já não me adapto a viver de novo na cidade.
VNT - Quer deixar alguma mensagem aos leitores do “Viver a Nossa Terra”? Sim. Quero dizer que Ribeirão tem pessoas com grande valor, e que deviam juntar esforços para dinamizar projectos culturais ou sociais que ainda não existem na nossa terra. Victor Ribeiro |
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