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Principal Ribeirão Na primeira pessoa, com Ivone da Silva Lima
Clube de Cultura e Desporto de Ribeirão | Terça, 07 Fevereiro 2012 |
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Na primeira pessoa, com Ivone da Silva Lima |
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Sexta, 24 Julho 2009 |
 Ivone da Silva Lima Ivone da Silva Lima, aposentada após 34 anos como “professora primária”, fala-nos, na primeira pessoa, da sua experiência de vida quer ao serviço da educação quer ao serviço do Criador.
Viver a Nossa Terra - Faça uma breve apresentação à sua pessoa. Ivone Silva Lima - O que posso dizer de mim? Nasci no centro de Vila Nova de Famalicão, onde vivi e estudei até aos 15 anos. Nessa altura, por razões familiares, fui viver para Guimarães, onde frequentei a Escola do Magistério Primário, que me preparou e formou como “Professora Primária”, profissão que abracei de alma e coração ao longo de todos estes anos. Procurei sempre evoluir, continuei a estudar, adquirindo novas competências que me levaram a concluir uma Licenciatura na Universidade do Minho. Sou a sétima e última filha de uma família humilde… (o meu pai era encarregado de armazém e a minha mãe modista). Constituíram família e dedicaram as suas vidas aos filhos, num clima onde o respeito, os valores, partilha e amor eram a bandeira da casa. Sou casada, mãe de dois filhos (uma já no céu) e uma neta, a Matilde, 3 meses, que é o nosso encanto. Estou reformada, embora, por enquanto, continue a ir diariamente para a escola colaborando em tudo o que é necessário no momento.
VNT - Lembra-se de algum episódio curioso que a tenha marcado na sua carreira de docente? ISL - Foram tantos os episódios e situações vividos… a forma acolhedora como era recebida nas escolas onde era colocada… as lágrimas que corriam nas nossas caras na hora da despedida, quando o ano lectivo acabava… os usos e costumes que aprendi nas terras onde estive colocada… as amizades que ganhei, quer no que diz respeito a colegas, quer a alunos, alguns deles agora também professores (as)… Um episódio específico? Lembro-me, ainda nos primeiros anos de carreira, de ter sido colocada numa escola de uma aldeia um pouco afastada e, de repente, um aluno (2º ano) diz-me que estavam a “estrupiar”, fiquei aflita… não percebia o que me estava a comunicar… chamei a funcionária, que, a sorrir, me diz tranquilamente: “professora, era eu que estava a bater à porta…” ”bater à porta = estrupiar”
VNT - Quer-nos contar uma(s) experiência(s) gratificante(s) na sua vida de professora? ISL - Tal como referi na questão anterior, felizmente a minha vida profissional presenteou- me mais com experiências gratificantes do que com experiências negativas. Alguns exemplos: a forma como interagíamos (professora/alunos)… a cumplicidade e empatia que se gerava… se me vissem adoentada, com dores de cabeça… logo se organizavam de modo a que, entre eles se promovesse o maior silêncio possível “para a professora melhorar”… desde o momento em que aprendiam a escrever, eram constantes as cartas e bilhetinhos que me escreviam com palavras cheias de carinho “professora, tu és linda!!!”, simpatia e significado. Quantos abraços recebi, com uma flor na mão, dizendo-me: gosto de ti, professora… não quero ver - te triste… e não viam, pois gestos desses fazem-nos esquecer todas as agruras da vida. O mais gratificante é, porém, o que acontece anos mais tarde, quando antigos alunos, agora adultos, muitos formados, com cursos superiores, outros que optaram pelo trabalho sem prosseguirem os estudos; muitos já casados… e me procuram, alegando a vontade de me verem, de quererem falar comigo… trazem-me flores… convidam-me para assistir à entrega dos seus Diplomas… mostram-me os filhos… e isto, sim, dá-me a sensação de que todo o meu trabalho não foi em vão, que representou algo, não só para mim, mas também para os meus alunos.
VNT - Entende que o papel do professor/educador é bem diferente ontem e hoje? ISL - Sem dúvida. Não o “papel do professor em si”, mas toda a situação que se tem criado em volta de Educação / Escola / Professores / Alunos / Famílias. “Ontem” o professor era respeitado como alguém que sabia e estava na escola para ajudar os alunos a aprender, cumpria os programas que lhe eram impostos, e ninguém contestava. “Hoje” em dia, a Educação é algo vago que ninguém sabe o que é… muitas Leis, Decretos, Portarias (muitos deles redigidos nos gabinetes e totalmente descabidos da realidade que se vive no terreno) … Experiências Piloto que são interrompidas antes do tempo previsto, e por isso não se tiram conclusões, mas, mesmo assim, são aplicadas… Além de leccionar, o professor tem, diariamente, uma panóplia de relatórios, formulários e afins para preencher… as reuniões são constantes… pouco tempo sobra ao fim do dia para preparar devidamente as aulas… os alunos, por sua vez, são subjugados a grandes cargas horárias semanais de aulas; estão na escola o dia todo e cada vez mais afastados ficam da casa e da família… estas, por sua vez, estão cada vez mais desunidas entre si (família) e em relação à escola… verifica-se também que muitos pais se demitem totalmente das suas responsabilidades de educadores, de transmissores naturais dos valores morais, sociais e cívicos… “tudo é natural, tudo é permitido, tudo é sem maldade…” educar é para a escola… como resultado, constatamos alunos completamente perdidos, sem qualquer orientação,..
VNT - Actualmente, mesmo estando aposentada, faz parte da equipa da nova directora do agrupamento de escolas de Ribeirão… ISL - Gosto de trabalhar, gosto do que faço… enquanto puder ajudar e estiver a ser útil, e desde que a minha vida familiar o permitir (agora tenho uma neta), continuarei a colaborar com a Direcção Executiva do Agrupamento de Escolas de Ribeirão.
VNT - É mais aliciante o trabalho directo com os alunos ou o trabalho na gestão escolar? ISL - É diferente… foram duas experiências muito, muito gratificantes, mas impossíveis de comparar... são trabalhos completamente diferentes, embora com um só e comum objectivo: os alunos e o seu crescimento / bem-estar psíquico e físico.
VNT - A sua paixão pelo ensino também tem tido expressão na catequese… ISL - Nunca pensei que, pelo facto de ser professora me fizesse também catequista… talvez… não sei… Sou catequista, sim, mas porque fui criada no seio de uma família que tentou sempre seguir o exemplo da Família de Nazaré, onde o amor a Deus era constantemente evocado, uma presença forte nas nossas vidas… quer pela recitação diária da Oração do Terço… quer pelo respeito, atenção e ajuda aos outros. Neste ambiente de fé, os meus irmãos e eu, desde muito pequenos, fomos crescendo com o sentimento de que todo o Cristão é Igreja e, como tal tem obrigação de fazer render os seus talentos, servindo Aquele que nos criou, através do apostolado, no meu caso a catequese e outros serviços.
VNT - Como viu ter sido motivo de homenagem por parte da Junta de Freguesia? ISL - Não fui só eu homenageada… muitas outras pessoas estavam comigo… umas pelo mesmo motivo, outras por outros, mas todos porque tentaram dar o seu melhor naquilo que fazem ou já fizeram. De todos os homenageados daquele dia, realço a D. Carolina Pimenta, que, sem nunca ter dado nas vistas, tem dedicado a sua vida a ajudar aqueles que dela precisam, sem nunca virar as costas, nem esperar obter qualquer tipo de dividendos. Tanto trabalhou e tanto bem fez pelos ribeirenses… A ela, sim, muito obrigada.
VNT - Será que não há outras profissões também merecedoras de tal homenagem… ISL - Todas as profissões são dignas de respeito, se desempenhadas com honestidade, empenho, abnegação e honra… logo são merecedoras de homenagem,
VNT - Estando há muitos anos ligada ao CCDR, como caracteriza a evolução desta associação e do associativismo em geral em Ribeirão? ISL - Não sou de Ribeirão, por isso não sei quantas nem quais as associações que existiam quando o CCDR foi criado, mas penso que poucas seriam… assisti (através do meu marido) à sua criação, pequenina… poucos sócios… alguns carolas que avançaram com o Jornal, o Atletismo, (cultura e desporto) … algum eventos… Com o decorrer dos anos, a vida do Clube não estagnou… pelo contrário, foi crescendo… criando novas e variadas modalidades desportivas; na vertente cultural, fundou-se a escola de música; a par destas actividades de carácter contínuo, vários eventos têm sido realizados: semana cultural, concertos, exposições, corridas… Entretanto, outras associações têm sido criadas… penso que todas podem ser úteis se estiverem ao serviço de todo o povo de Ribeirão, sem aproveitamentos quer políticos, quer de outra natureza qualquer.
VNT - Ribeirão como vila tem tido uma evolução positiva? ISL - É inegável a evolução que Ribeirão tem apresentado ao longo destes anos. Quando para cá vim viver (e trabalhar), a maior parte das estradas eram caminhos de terra, não havia água canalizada nem saneamento básico; as escolas estavam em total degradação e não se vislumbrava vontade de as restaurar, pelo contrário era investimento que nem se ponderava. Actualmente, Ribeirão tem o que qualquer cidade possui: boas acessibilidades – estradas alcatroadas, água canalizada e saneamento básico em toda a vila; as escolas estão completamente restauradas e inovadas… Centro de Saúde… dois excelentes Centros Sociais que respondem totalmente às necessidades da nossa população… até um Centro Escolar está já a ser construído, onde as nossas crianças vão poder usufruir de condições óptimas para o desenvolvimento das suas aprendizagens.
VNT - A personalidade da sua vida. ISL - Maria – exemplo de um ser humano extremamente corajoso e de personalidade tão forte que foi capaz de responder, com grande humildade, SIM à vontade de Deus, assumindo a maternidade de Jesus, enfrentando assim a condenação de uma sociedade adversa e intransigente.
VNT - O filme da sua vida. ISL - Música no Coração / Love story / Mama Mia
VNT - O livro da sua vida. ISL - Vai onde te leva o coração (por vezes só mais tarde vemos o que deixamos de ter) Senhor Deus, esta é a Ana (uma visão de Deus com a qual eu me identifico) A Doçura da chuva (descobrir felicidade e alegria em simples e pequenos gestos da vida)
VNT - Local que gostaria de visitar. ISL - Tantos… gostava de conhecer outros povos, outras civilizações. As Civilizações Orientais fascinam-me… pelos monumentos e pelas filosofias que lhe são inerentes.
VNT - Local onde gostaria de viver. ISL - Para mim, qualquer lugar é bom, desde que esteja rodeada pela família e amigos.
VNT - Quer deixar alguma mensagem aos leitores do “Viver a Nossa Terra”? ISL - Respirem fundo… Despertem para a vida… vivam a vida valorizando cada momento, cada acontecimento… pois a beleza da vida está nas coisas mais simples… e… agradeçam a Deus a oportunidade de serem felizes. |
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