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Clube de Cultura e Desporto de Ribeirão | Terça, 07 Fevereiro 2012
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Na Primeira Pessoa, com Cândido Ferrer PDF Imprimir E-mail
Sábado, 24 Outubro 2009
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Eng. Cândido Ferrer

Cândido Ferrer, um trofense que adoptou Ribeirão como a sua terra e aqui tem investido a nível familiar, profissional e de participação cívica... e já lá vão muitos anos!

Viver a Nossa Terra - Quem é o Eng. Ferrer?
Cândido Ferrer - Sou o Cândido Augusto Ferrer Oliveira Dias.

VNT - Foi um homem que subiu a pulso, trabalhou, estudou, formou-se em engenharia já numa fase avançada da vida...

CF - Sempre fui trabalhador estudante. Formei-me em Engenharia Mecânica, com muito esforço e sacrifício, em Março de 1978, no Instituto Superior de Engenharia de Lisboa.
Com dezassete anos apenas tinha a quarta classe. Com vinte e dois anos possuía o Curso Industrial Têxtil pela Escola Francisco de Holanda – Guimarães.
Detenho vários cursos de director, tanto conseguidos cá como no estrangeiro, na década de 70-80.

VNT - Como foi a experiência, para um homem do norte, trabalhar na CUF, no Barreiro, nos tempos após o 25 de Abril?
CF - Difícil! Frequentemente difícil! Não sei onde fui buscar força para dizer que era nortenho, católico e não comunista. Custou-me esse atrevimento uma luta titânica contra tudo e todos. Barreiro naquele tempo era o núcleo do Partido Comunista.
Andei sempre de crucifixo ao peito como hoje ainda o faço.
Voltando um pouco atrás, sempre direi que na noite de 24 para 25 de Abril de 1974 estava como responsável do Sector Têxtil (da meia-noite às sete horas da manhã). Foi terrível, indescritível! Só vendo! Só vendo!
As perseguições à policia secreta (PIDE); as forças militares na rua António Martins Cardoso e por toda a Lisboa, eu presenciei.
O 25 de Novembro veio colocar um pouco de “água na fervura”.
Não me alongo mais. Este tema daria para todo o Jornal.

VNT - Mudou por Moçambique, conheceu Samora Machel, participou na reconstrução daquele novo país...
CF - Não falei apenas com o Marechal Machel. Vamos por partes.
Na sua primeira visita à fábrica têxtil de Perengué para falar connosco, a todos cumprimentou e fez perguntas.
A mim coube-me esta: “Porque estás cá?”. Por momentos fiquei bloqueado. A minha resposta teve o cunho da espontaneidade: Vamos “conquistar” novamente Moçambique; com humildade, trabalho honesto, fraternidade e assim colocar Moçambique no caminho do progresso.
A resposta devia ter-lhe agradado porque sorriu.
A outra personagem com quem falamos foi com o actual presidente da República de Moçambique, Armando Guebusa-
Ao tempo era ele Governador residente na cidade da Beira.
Pelos serviços por nós (éramos três) prestados em Moçambique ofereceu a cada um, um diploma e uma bonita caravela em “pau-preto”.
O nosso trabalho foi muito e bom:
Construímos uma máquina de fazer corda; polímero em plástico de baixa densidade (deste polímero “saiu” copos, pratos e tigelas; colocamos a trabalhar várias fábricas, fomos capazes de pela primeira vez fazer do grupo de futebol da Têxtil da Purgue, campeão nacional de Moçambique; ajudamos a organizar a Feira Internacional da cidade da Beira; organizamos e colaboramos na recuperação da frota de autocarros urbanos (machibombos); de uma quinta abandonada (Machamba) conseguimos uma herdade modelo (a história, por si só, daria um livro!); construímos uma escola na fábrica, formamos professores para darem aulas aos trabalhadores (até à 4ª classe); levantamos uma pequena represa para aí apanhar peixe. Trabalhamos desde Nacala ao norte até ao Maputo, extremo Sul.
Porém o nosso maior sucesso foi a confraternização. Quando jogávamos à bola, a cor que distinguia uns dos outros, era a da camisola!
As saudades que nutro por Moçambique, retratam-se bem, no filme “África Minha”.

VNT - Como avalia a sua participação na vida autárquica quer na Assembleia quer na Junta?
CF - A minha vida autárquica foi enriquecedora sob todos os aspectos. Aprendi sobretudo a conhecer melhor as pessoas e os seus anseios.
Assim na autarquia ribeirense, na oposição fui membro da Assembleia. De uma forma ou de outro, todos pugnavam por um Ribeirão melhor.
Na Junta de Freguesia de Ribeirão como secretário, guardo desse tempo boas recordações; trabalho honesto, coesão e companheirismo eram as componentes de uma força que nunca me abandonou; o resultado está à vista!

VNT - Como vê hoje Ribeirão?
CF - Ribeirão imprimiu uma modernidade contínua, progressiva e permanente.
Se bem conheço o novo presidente da autarquia, estou confiante que de futuro assim será também.

VNT - O jornal Viver a Nossa Terra foi para si uma oportunidade de uma nova experiência de vida?
CF - Jamais me vi, como engenheiro mecânico, a colaborar num jornal, escrevendo.
Muito do que sou hoje, o devo ao jornal “Viver a Nossa Terra”. Obrigou-me a aprender e aprender; à minha mulher e ao meu filho pelas consultas que sempre faço antes de tomar qualquer iniciativa.
Aos directores do Jornal e principalmente ao doutor Santos Oliveira e ao professor Couto, o meu público reconhecimento, pelo apoio que sempre me deram.
O nome da rubrica “Depois das Seis”, nasceu porque só poderia escrever depois do trabalho. Logo…
Tinha alguns livros quando comecei a escrever, hoje, por força da minha colaboração no Jornal, possuo muitos mais… E não chegam!

VNT - A rubrica “Depois das Seis” publicada neste jornal não dava já um livro ou mais?
CF - Como o que escrevo é tão diversificado, teria de separar por temas o livro. Mas lá que daria um bom livro, disso tenho eu a certeza… e também trabalho sem fim!

VNT - Qual o segredo para tanta vitalidade com uma idade já provecta?
CF - A “receita” ofereço-a graciosamente: Menos noites de folia e mais dias de vida activa; fazer exercício físico e mental; levar uma vida “monacal”; conseguir dormir mesmo com trovoada; vida familiar com muito amor; adormecer e acordar com Deus e com os anjos; Não conhecer inimigos; ter uma vida tranquila sem stress.

VNT - Personalidade da sua vida
CF - Sem vacilar, direi que foi meu pai, um chefe de família exemplar, não esquecendo a minha mãe, uma super educadora por vontade de Deus.

VNT - Livro da sua vida
CF - O livro da minha vida… São dois: A Bíblia, onde busco diariamente a paz de espírito e alimento para a minha alma; “Os Lusíadas” que canta toda a grandeza o Pais que tanto amo!

VNT - Filme da sua vida
CF - Dos muitos que já vi, destaco pelo seu conteúdo, Quo Vadis, extraído do romance de Sienkiewici, polaco, de origem lituana. Este filme é um hino ao amor!
No tempo do imperador Nero, um dos seus oficiais (pagão), apaixona-se por uma cristã (Lígia). O epílogo é majestoso!

VNT - Local que gostaria de visitar
CF - A Terra Santa e mais concretamente o Santo Sepulcro, o mar da Galileia e a “cidade” de Cristo, Cafarnaum, a noroeste do mar; o Vaticano… e a Austrália.

VNT - Local onde gostaria de viver
CF - Se não vivesse em Ribeirão, gostaria de viver em… Ribeirão.

VNT - Quer deixar uma mensagem aos leitores do Viver a Nossa Terra?
CF - Um dia, em Boticar, um amigo meu aconselhou-me ir ver a estátua de Miguel Torga, exposta num jardim. Em placas graníticas no solo, muito havia para ler. Chamou-me a atenção uma bem significativa
“Quem não quer ler
Não quer saber
Quem não quer saber
Quer ser…”
Adivinhem o resto

Gabriela Gonçalves
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